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Postado em: 9/5/2009 as 21:10

De Brasília

 

LETRAS MINHAS

Laços de ternura

A mulher miúda era jovem quando chegou a Brasília. Naquele tempo, o lugar ainda era muito mais um grande acampamento, um esboço de qualquer coisa parecida com uma cidade devidamente instalada. Reinava certa desorganização, mas as pessoas que chegavam ao planalto central do Brasil tinham certeza de haver encontrado o eldorado.

 

A mulher miúda era, naqueles tempos, uma moça até atraente. Tinha lá seu charme brejeiro. Em pouco tempo entrou num nicho profissional que movimentava muito dinheiro e era dos mais tradicionais em qualquer ponto do país: a venda de joias de mão em mão. Um tipo de negócio que prosperava alimentado pelo insumo inesgotável da vaidade feminina.

 

Mesmo com todas as suas precariedades Brasília já abrigava um mercado robusto de consumidoras ávidas, mulheres que desejavam conceder-se alguma recompensa por terem ido viver num lugar que oferecia basicamente vastidão, poeira e solidão.

 

A clientela era formada principalmente pelas funcionárias públicas, o que levou a mulher miúda a conhecer todos os labirintos da Esplanada dos Ministérios e os prédios das autarquias e demais repartições. Nos finais de semana ziguezagueava pelas superquadras, em busca das esposas dos funcionários públicos que não trabalhavam fora.

 

Quando ela chegava com aquele pano aflanelado azul, em formato de cilindro, repleto de cordões, pulseiras, brincos e anéis, desembrulhava sopros dourados e prateados de alento. Uma espécie de mescalina oftalmológica. Aqui e ali tomava um cano, era um dos riscos do negócio. Mas aprendeu logo a estabelecer limites de vendas por cliente e a fazer reserva financeira para cobrir as fatalidades.

 

Nem bem tinha completado dois anos em Brasília, apaixonou-se pelo representante de negócios de uma multinacional. A sede brasileira da empresa ficava em São Paulo, mas o fulano tinha escritório bacana montado no Setor Comercial Sul da nova capital para "facilitar os negócios", como costumava dizer. Como vivia viajando de avião entre as duas cidades e tinha até ar refrigerado no escritório, ela tinha certeza de que ele era um homem muito importante.

 

Visitou o namorado uma única vez no trabalho e não fazia perguntas. Um dia, o sujeito não retornou mais e a mulher miúda teve um pressentimento estranho. Num telefonema ao escritório que ele chefiava, soube que seu homem era casado, tinha dois filhos pequenos e morrera de câncer. Mal se refez do golpe, descobriu-se grávida daquele amor improvável. Tinha vinte e cinco anos quando deu à luz um menino. Ficou estarrecida com o diagnóstico de paralisia cerebral que acompanhou o bebê para casa.

 

A partir daí ela dedicou todas as forças ao seu menino. Não tinham parentes em nenhum lugar. Sobraram apenas os dois, era um pelo outro e ninguém mais. Os tempos mudaram muito, tirando do mercado aquele negócio de vender joias de mão em mão. A sorte é que os anos em corredores públicos lhe garantiram certa visibilidade, a ponto de um senador ficar compadecido e transformar a mulher miúda numa espécie de faz-tudo extra-oficial do gabinete. Desde então é assim, às migalhas, que obtém o sustento dela e do filho.

 

Acabou de completar 75 anos e recebeu diagnóstico de câncer no ovário. Os médicos indicaram cirurgia. A mulher miúda, agora grisalha e ainda mais miúda, está vivendo o maior dilema de sua vida: fazer ou não essa cirurgia. Tem medo de morrer, não pelo simples medo da morte. Sabe que, morrendo, estará levando à morte seu menino, que acaba de completar 50 anos.

 

É claro que ela entrou em pânico, já que não há parentes e ninguém, além dela, para cuidar do grande parceiro agora homem feito. Para fugir do desespero tem reforçado suas orações, clamando pela misericórdia Divina. Não ousa pedir para continuar vivendo; não quer de forma alguma incomodar a Deus com uma bobagem dessas. Seu desejo ardente é que o Todo-Poderoso leve seu menino um pouquinho antes dela. Aí sim, sente-se em condições de morrer em paz.

 

NOTAS DO MOLESKINE

Armando Nogueira não merece obituário. Apenas celebração.

 

COM A BOCA NO MUNDO

Palavras 1

"Eu imagino a vida como um leque, que o tempo vai fechando."

(Armando Nogueira, ex-jornalista)

 

Palavras 2

"Quando você chega em casa de madrugada e sua mulher nem reclama é porque já é tarde demais."

(Millôr Fernandes, gênio da raça)

 

Palavras 3

"Como seria a sociedade se não houvesse repórteres para serem vigilantes por nós?"

(Kevin MacDonald, diretor de cinema britânico)

 

Palavras 4

"As gafes abalaram a imagem encantada do Brasil e seu presidente, transformando um gigante político num pigmeu moral."

(Trecho de matéria do jornal inglês Financial Times, a respeito da postura do governo brasileiro em relação a Cuba e Irã)

 

Palavras 5

"Achar que tem cacife para mediar o conflito entre árabes e Israel já é mais do que se achar. É soberba mesmo."

(Ancelmo Gois, jornalista, comentando mais um capítulo da presunção irrefreável de Lula da Silva)

 

Palavras 6

"Lula viajou para os Estados Unidos como candidato ao cargo de secretário-geral da ONU. Configurado o isolamento internacional, voltou como candidato a ex-presidente do Brasil. Ainda vai descobrir que foi o tradutor, e não Obama, quem disse que ele era ‘o cara'."

(Augusto Nunes, jornalista, comentando a presença de Lula da Silva na reunião realizada em Washington para tratar da crise atômica do Irã)

 

Palavras 7

"A realidade é que a democracia funciona melhor quando há grandes jornalistas, grandes legisladores e tribunais inteligentes e fortes."

(R.B.Brenner, editor do jornal Washington Post)

 

Palavras 8

"Elas roubam igual, gastam cartão corporativo igual, mentem igual, fingem igual. Enfim, são tão cínicas quanto nossos políticos."

(Mary Del Priore, historiadora, a respeito das mulheres na política)

 

Palavras 9

"Depois de oito anos aparando pedra com o peito, depois de oito anos fazendo os mais incríveis papéis, os mais patéticos contorcionismos éticos e verbais, tudo para defender o governo Lula, agora Ideli não pode se candidatar ao governo de Santa Catarina? Como é isso?!"

(Lucia Hippolito, historiadora, comentando a decisão da direção nacional do PT proibindo a senadora Ideli Salvatti de ser candidata ao governo do seu estado, para apoiar o candidato do PMDB em favor do palanque de Dilma Rousseff)

 

Palavras 10

"Dilma do Chefe".

(Forma como o nome da candidata do governo está sendo pronunciado em diversos pontos do Nordeste, segundo o jornalista e consultor de marketing político Gaudêncio Torquato)

 

Palavras 11

"Não acredito que essas assombrações que desfilam nas fashion weeks sejam do mesmo sexo, da mesma espécie e do mesmo planeta que as Mulatas do Gois."

(Ruy Castro, jornalista e escritor, comparando aquelas modelos cadavéricas dos desfiles de moda com as mulheres monumentais que participam do concurso do jornalista Ancelmo Gois)

 

Palavras 12

"Quanto mais a imprensa pede por um jogador, menos chance ele tem."

(Dunga, negando rendição diante do futebol eletrizante de Neymar e Ganso, do Santos, na reta final de convocação da Seleção para a Copa)

 

DO QUE ROLOU NA IMPRENSA

Trilhos

Ignorando a quantidade descomunal de cobranças e críticas que lhe foram dirigidas desde o final de 2009, José Serra manteve inalterado seu calendário para a campanha eleitoral. Hoje, aliados e adversários são obrigados a concordar que a estratégia do tucano tem sido impecável em todos os sentidos.

 

Visão

Quem criticou Serra por não atacar - e até elogiar - Lula da Silva começa a se render a um fato indiscutível: essa postura está plantada no futuro. Primeiro, é estupidez atacar um político com mais de 70% de índice de popularidade. Segundo, Lula da Silva jamais carrega fardos muito pesados. Por isso, se Dilma Rousseff se mantiver na posição pífia em que se encontra até aqui, com magros 25% de intenções de voto, Serra já pavimentou o caminho para o presidente sair de fininho e largar sua criatura à própria sorte.

 

Sem transferência

Serra está completamente sintonizado com as dificuldades da principal concorrente. Na verdade, a popularidade de Lula da Silva não grudou em Dilma Rousseff, embora o presidente tenha dedicado tempo integral para viabilizar sua candidata, acionando pesadamente a máquina oficial e ultrapassando continuamente os limites da lei eleitoral. Além disso, Dilma não consegue empolgar ninguém. Sofre com sua crônica falta de carisma e com seu discurso tosco, empolado e sem qualquer nexo.

 

Saliva

Para evitar debandada numa coligação cada vez mais desconfiada de que as coisas estão fugindo do controle, Lula da Silva tenta tranquilizar os aliados afirmando que Dilma empacou porque ele ainda não subiu no palanque. Mas esse discurso tem soado como garantia de pouca liquidez neste momento.

 

Contratempo

Na verdade, o Planalto está zonzo porque Serra se esquivou sem maiores dificuldades da imagem de "anti-Lula" que o governo tentou lhe pespegar, começa a empinar um voo próprio inesperado e a transitar com enorme desenvoltura pelos quatro cantos do país.

 

Fantasma

Permanece pairando sobre o PT os recentes avisos fúnebres chegados de países vizinhos. No Chile, a presidenta Michele Bachelet detinha 80% de aprovação - índice superior ao de Lula da Silva -, mas não conseguiu transformar popularidade em votos para eleger seu próprio candidato. Na Colômbia, o atual presidente Alvaro Uribe, dono de quase 80% de aprovação popular, não deverá fazer seu sucessor. Como se vê, eleger postes não é tão simples quanto de diz por aí. Sem contar que os postes deles eram muito mais tarimbados e conhecidos que o nosso.

 

Desespero

Nos subterrâneos da campanha petista circulam rumores de que, caso Dilma Rousseff permaneça empacada nas pesquisas depois do programa televisivo que será exibido em maio, João Santana deve sair de cena para que, no melhor estilo amor bandido, Duda Mendonça ressurja das trevas com seu tradicional cardápio de pajelanças eleitoreiras.

 

Sobrenatural

Algumas vozes petistas mais sensatas já começam a considerar que, mantido o quadro de erros e vexames, a eleição de Dilma Rousseff começa a transitar no plano dos milagres.

 

Valendo aposta

Bastou os números das pesquisas do Datafolha apontarem um crescimento de José Serra, para boa parte do PMDB começar a falar em privado que o partido "não está 100% fechado com Dilma Rousseff".

 

Sandálias

Segundo alguns peemedebistas, essa subida de Serra serviu também para a candidata do PT descer do pedestal, pois já andava posando como eleita. Segundo um senador, a queda "Fez ela calçar as sandálias da humildade".

 

Retrato

Agora começa para a ex-ministra um momento delicado, de se mostrar viável como candidata. Se Serra continuar crescendo, ela corre o risco de ver o PMDB desembarcar do barco da sua aventura eleitoral.

 

Rebuliço

A confusão que a direção nacional do PT arrumou com o diretório regional de Minas Gerais, tentando impor o apoio do partido à candidatura de Hélio Costa (PMDB) ao governo estadual, pode ter formado uma área de erosão irrecuperável à candidatura de Dilma Rousseff.

 

Aviso

Em reação, o diretório mineiro fez suas prévias para escolher candidato próprio e esvaziar a aliança regional com o PMDB. O resultado veio a jato: Lula da Silva já foi avisado por um político de larga experiência de que, caso mantenha essa rota de atrito, o PT vai empurrar Aécio Neves como vice para a chapa de José Serra, enterrando de vez qualquer chance de eleição para Dilma Rousseff.

 

Pancadaria interna

O clima nos bastidores da campanha petista está muito acima do tom, com diversos assessores se digladiando pelo poder de influenciar a candidata. Alimentando a pendenga, em lados opostos, os egos de marqueteiros e jornalistas. O mais chamuscado pela guerra é o ministro Franklin Martins.

 

Números tortos

As pesquisas eleitorais no Brasil permanecem um enigma. Hoje, quem conversa com Carlos Montenegro (Ibope) vai embora convencido de que José Serra será o próximo presidente, já no primeiro turno. Se o papo for com Marcos Coimbra (Vox Populi) não terá dúvida a respeito da eleição de Dilma Rousseff.

 

Arroz de festa

A Ordem do Rio Branco foi criada em 1963 para ser oferecida a pessoas que, "pelos seus serviços ou méritos excepcionais, se tenham tornado merecedoras de distinção". Logo se transformou na mais importante condecoração concedida pelo Itamaraty e pelo país. O governo Lula da Silva conseguiu transformá-la em medalhinha de feira, ao premiar gente sem qualquer significância ou mérito. Como Erenice Guerra, braço direito de Dilma Rousseff, que coordenou a montagem de um dossiê mentiroso a respeito de gastos pessoais de Ruth e Fernando Henrique Cardoso. Ou mesmo um tal Bruno Gaspar, que chocou o país fazendo gestos obscenos ao lado do chefe Marco Aurélio Garcia, depois da queda do avião da TAM em Congonhas. Sem contar diversas outras nulidades absolutas que foram agraciadas, tais como Marisa Letícia e Mariza Silva, esposas de Lula e de José Alencar.

 

Oceano de Janeiro

Durante o dilúvio que inundou a região metropolitana do Rio, os flagelados foram socorridos por bombeiros e cidadãos comuns. As autoridades, como de costume, ficaram falando abobrinhas e culpando o passado, como é a prática dessa gente sem futuro.

 

Pelada

O secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, tem uma primeira grande preocupação com relação à Copa de 2014: o péssimo estado dos aeroportos brasileiros, somado à deficiência da rede hoteleira.

 

Tapume

A segunda é o atraso completo nas obras dos estádios, que levou a FIFA a cogitar transferir a Copa para a Inglaterra. Alguém precisa avisar aos donos da bola que, enquanto não passar o período eleitoral, nada vai andar por aqui.

 

Bilheteria gorda 1

Dois filmes nacionais mostram quem realmente o brasileiro enxerga como "filho do Brasil": Chico Xavier, de Daniel Filho, levou ao cinema nos dois primeiros dias de exibição, nada menos do que 442 mil pessoas - metade de todo o público da trajetória de Lula, o filho do Brasil. Já há prognósticos de que o médium mineiro terá a maior bilheteria nacional de todos os tempos. Até agora, mais de 2 milhões de pessoas pagaram ingresso.

 

Bilheteria gorda 2

Outro "filho do Brasil" que se anuncia como grande sucesso é O Bem-amado, de Guel Arraes. Diante da enorme expectativa gerada pelo filme, a produção pretende fazer exibições específicas e participar de alguns festivais, antes da estreia prevista para o final de julho.

 

Caravana do adeus

Luis Carlos Barreto, produtor de Lula, o filho do Brasil, tentou diminuir o vexame do filme inventando uma espécie de caravana que levaria a obra de bajulação a cidades onde não existem cinemas, com ingressos a R$ 1. Não apareceu ninguém disposto a patrocinar esse réquiem.

 

Grátis

Sem despertar interesse no público, Lula, o filho do Brasil se entrega ao vexame definitivo dos downloads gratuitos oferecidos por sites e blogs ligados ao PT. Nem assim.

 

Taco 1

Tiger Woods foi vítima da famosíssima hipocrisia sexual americana e obrigado a vir a público se desculpar pelos casos extraconjugais. No íntimo, deve estar dando gargalhadas. Na condição de atleta mais bem pago de todos os tempos, pode se aposentar na hora que quiser e viver nababescamente até o fim da vida. Além disso, sua saída dos campos de golfe causou ao campeonato um prejuízo superior a R$ 20 bilhões.

 

Taco 2

E, pelo visto, o público nem ligou para as puladas de cerca de Woods. Tanto que nada menos de 40 mil pessoas - isso mesmo, gente suficiente para lotar um estádio - foram ver o primeiro treino - isso mesmo, treino - do golfista depois dos escândalos sexuais. Na verdade, os cartolas e torcedores estavam quase de joelhos esperando que ele voltasse a dar suas tacadas nos gramados. E, debaixo dos lençóis, tudo voltará a ser como nunca deixou de ser, loiras e morenas incluídas.

 

Cofrão

A cantora Madonna já faturou para sua ONG nada menos do que R$ 21,6 milhões em doações de empresários brasileiros. Agora começaram a surgir dúvidas a respeito dessa atividade da artista, pois algumas instituições supostamente beneficiadas afirmam jamais terem recebido qualquer valor. Pior: alegam que o fato de terem seus nomes associados ao da artista provoca a impressão de que estão nadando em dinheiro, e isso dificulta a obtenção de novos patrocínios.

 

Temor

Registra-se um clima de pânico nos rincões do Nordeste, depois que os jumentos tomaram conhecimento de que os afegãos utilizaram um burro-bomba em atentado que matou três crianças. Um grupo de líderes muares se prepara para ir a Brasília pedir que o governo crie barreiras alfandegárias para impedir a exportação da espécie.

 

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